Janeiro Branco costuma abrir espaço para conversas que ficam engavetadas no resto do ano. E uma delas aparece cada vez mais, especialmente quando alguém está deprimido: “Vou adotar um pet para melhorar”.
A ideia faz sentido. Um animal pode trazer companhia, rotina e um tipo de presença que ajuda a atravessar o dia. Só que existe um ponto que muda a conversa: pet não é um recurso de bem-estar. É um ser vivo com necessidades diárias, custos e imprevistos. O vínculo pode ajudar a saúde mental, mas também pode pesar quando a vida já está no limite.
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Uma revisão publicada em 2025, reunindo mais de 20 estudos, aponta um recado importante para tutores: ter um pet, por si só, não aparece como garantia de menos depressão quando se comparam pessoas responsáveis por pets e pessoas sem pets. Quando os dados são separados por espécie, os resultados variam: cães mostram efeitos mistos; gatos aparecem associados a um risco um pouco maior. Esses trabalhos não provam causa e efeito, mas derrubam a promessa simplista de que “adotar melhora” sempre.
Em outras palavras: para algumas pessoas, o pet vira fator de proteção. Para outras, não muda. E, em certos cenários, vira mais uma fonte de pressão.
Quando o vínculo ajuda de verdade
O benefício costuma aparecer quando o pet melhora a vida de forma concreta: organiza o dia, reduz solidão, incentiva movimento e cria pequenos rituais que tiram a pessoa do isolamento. Estudos recentes reforçam que o impacto no bem-estar passa por fatores como solidão, moradia e qualidade do vínculo, e não apenas pelo fato de “ter um animal”.
Quando o vínculo pesa
A parte que raramente entra nas conversas é simples: cuidado dá trabalho. Pets adoecem, envelhecem, demandam acompanhamento, podem ter comportamento difícil. E isso mexe com quem cuida.
Pesquisas com responsáveis por animais em tratamento médico mostram que uma parcela relevante desenvolve sinais de sobrecarga, com estresse e exaustão. Em casos de problemas comportamentais, a frequência de sobrecarga pode ser ainda maior, inclusive em níveis mais graves.
Para quem está em depressão, isso é especialmente importante. Depressão não é só tristeza. Pode envolver queda de energia, dificuldade de iniciar tarefas, irritabilidade e culpa fácil. Quando o cuidado do pet exige muito, o risco é entrar num ciclo ruim: a pessoa se sente pior por não dar conta, e o animal também pode sofrer com instabilidade e falta de previsibilidade.
A pergunta que protege você e o animal
Se você está em depressão e pensa em adotar, a pergunta mais útil é direta:
Você consegue cuidar dele no seu pior dia?
Não no dia em que tudo flui. No dia em que levantar parece impossível.
Alguns pontos práticos ajudam a avaliar:
- Você tem rede de apoio real (alguém que possa ajudar com passeio, limpeza, compras ou veterinário quando você não der conta).
- Você consegue sustentar uma rotina mínima diária.
- Você tem um plano financeiro para o básico e para imprevistos.
- Você escolhe um animal compatível com sua vida atual (filhotes exigem muito; alguns adultos são mais previsíveis, mas podem demandar cuidados de saúde).
Se isso ainda não fecha, não significa desistir de vínculo com animais. Existem alternativas que preservam contato sem colocar um ser vivo dentro de um cenário instável: lar temporário, voluntariado, ajudar alguém próximo em dias fixos, convívio gradual.
Um alerta delicado: pet não substitui pessoas
Outro ponto levantado por estudos recentes é o risco de a relação com o pet virar substituição das relações humanas. Em linguagem simples: quando o animal vira o único pilar, a pessoa pode se isolar mais. O caminho mais protetivo é pet somado a rede humana, e não pet no lugar de gente.
Para quem já é responsável por um pet e precisa de apoio
Se você já tem um animal e está em depressão, o objetivo não é virar “responsável perfeito”. É garantir o essencial com consistência e reduzir culpa.
Três movimentos costumam ajudar:
- Simplificar a rotina para o básico funcionar todos os dias.
- Pedir ajuda de forma específica e combinada.
- Buscar suporte técnico cedo se o pet está doente ou com comportamento difícil, para reduzir desgaste e evitar que a situação vire uma fonte constante de culpa.
Pets podem ser um suporte emocional poderoso. Mas a melhor evidência e a vida real apontam a mesma direção: pet não é remédio. Ele pode ajudar quando o vínculo é sustentável. E pode pesar quando a pessoa está esgotada e sem apoio para dividir o cuidado.
Janeiro Branco é um bom momento para trocar promessa por responsabilidade afetiva: olhar para o vínculo com amor, sim, mas também com planejamento. Porque o melhor cenário é sempre o mesmo: uma relação que faça bem para os dois lados.

