Um estudo recente sobre a relação de tutores com seus cães em Hong Kong e na China continental revelou padrões de escolha e motivações que diferem significativamente de tendências observadas em regiões como Estados Unidos, Reino Unido e partes da Europa. A pesquisa, baseada em entrevistas online feitas com 2.036 pessoas, fornece insights sobre os fatores que influenciam a decisão de ter um cachorro e as percepções dos humanos a respeito de seus pets.

Conduzido por pesquisadores da City University of Hong Kong, o trabalho apontou que o cachorro mais popular entre os chineses é o sem raça definida. São os vira-latas que dominam os lares, com cerca de 40% do total de respostas. Já entre as raças, a mais popular é o poodle.

Outro ponto importante: cães braquicefálicos (de focinho achatado), como bulldogs e pugs, são fenômenos nos EUA e na Europa. Lá, porém, eles são menos populares. Isso é visto pelos pesquisadores com otimismo, já que as raças braquicefálicas frequentemente sofrem com problemas respiratórios. Com menor prevalência desses tipos de cachorros, menor a ocorrência desse males na população canina.

A principal razão para se ter um cão em Hong Kong, ex-colônia britânica, e na China foi o “companheirismo para humanos”, com 45,4% das respostas. Além disso, 26,6% dos entrevistados afirmaram que estão com um cachorro em casa porque o animal “precisava de um lar”. Quase todos os tutores (99%) consideram seus cães parte da família, refletindo uma forte conexão emocional entre humanos e os pets.

A maioria dos cães (65%) veio de fontes não comerciais, como bichos adotados em abrigos ou dados por amigos ou familiares. Em Hong Kong, os abrigos foram o principal recurso dos tutores para encontrar uma companhia de quatro patas. Na China Continental, a maior parte dos animais foi obtida de amigos ou vizinhos. Apenas 35,5% dos cães vieram de fontes comerciais, como pet shops ou criadores. A preferência por adoção pode explicar a alta proporção de cães de raças mistas ou vira-latas na região.

Outro achado do estudo se refere à idade dos tutores. Em Hong Kong, eles tendem a ser mais velhos; na China continental, a maioria é mais jovem. Além disso, as taxas de castração são significativamente mais altas em Hong Kong (acima de 90%) do que na China continental (cerca de 56%). A diferença pode estar relacionada ao fato de que muitos cães em Hong Kong são adotados de abrigos, onde a castração é uma prática comum antes da adoção.

Um dos integrantes do time de pesquisadores é um brasileiro: o médico veterinário Paulo Vinícius Steagall, que está há cerca de três anos na universidade de Hong Kong. Formado na Unesp de Botucatu, ele está fora do Brasil há quase 20 anos. Ele se especializou como anestesiologista nos Estados Unidos, onde viveu por aproximadamente três anos antes de se mudar para o Canadá.

“Temos muitas informações baseadas nos estudos da América do Norte e da Europa. Normalmente, eles não consideram fatores culturais. Na Ásia, existe uma forte conexão de humanos com seus pets”, comentou Steagall. Ele ponderou que existem muitos preconceitos em relação a tutores asiáticos. Estudos como esse mostram como pensam os tutores da região.

Segundo Steagall, é normal pensarem logo em abrigo quando se busca um cão. Por outro lado, falta conscientização a respeito das implicações, sobretudo as financeiras, do cuidado com os cachorros. É preciso educar as pessoas a esse respeito.

O tutor que é escolhido

Uma característica vista na região é a aceitação de que é preciso pagar ao abrigo uma “taxa de adoção”. É que toda ONG do gênero só entrega aos tutores animais que estejam castrados. “É culturalmente aceito que se deva pagar por isso, sendo considerada uma maneira de apoiar os abrigos”, conta. “Em outros países, as pessoas podem ficar bravas se tiverem de pagar por algo”.

O processo de adoção envolve entrevista e, em alguns casos, visita ao local onde viverá o animal. E existe o pagamento da “taxa de adoção”. Como diz Steagall, lá a ideia não é que o cachorro foi escolhido. Quem será escolhido é o tutor.

Embora o problema do abandono de animais seja global, em Hong Kong ele não é o maior motivo de preocupação. A principal queixa se refere a cães trazidos ilegalmente. Em geral, são cachorros de raça que custam muito dinheiro e que chegam às escondidas. Apreendidos, eles podem ficar entre seis meses e um ano em abrigos esperando pela regularização do processo.