Uma reportagem publicada pela Newsweek neste mês trouxe algo que ficou me acompanhando por dias: pessoas estão usando inteligência artificial (IA) para conversar com entes queridos que morreram. Não para ver fotos ou ouvir gravações antigas, mas para conversar de fato, em tempo real, com respostas construídas a partir de mensagens, áudios e registros digitais da pessoa falecida. Justin Harrison, fundador da startup californiana You Only Virtual, criou uma réplica digital de sua mãe após o diagnóstico de câncer terminal dela em 2020. Ele a chama de “versona” e diz que a experiência o ajudou a atravessar a perda. A empresa hoje oferece o serviço comercialmente, com planos pagos que incluem chamadas de voz.
Li o texto pensando no luto humano e, em algum momento, percebi que o que meus pacientes enlutados pela perda de um pet desejam é algo diferente, e mais fundo do que recriar o animal. O que eles querem é que o pet pudesse ter falado. Com voz humana.
O que responsáveis enlutados trazem ao atendimento clínico com frequência é a necessidade de uma conversa que nunca pode acontecer, por impossibilidade estrutural, porque a linguagem verbal nunca foi uma ferramenta disponível nessa relação. Perguntas que ficaram sem resposta, despedidas que não puderam ser ditas, dúvidas sobre se o pet compreendeu o que sentia o responsável, sobre se sofreu, sobre se perdoou. O que une essas questões é o mesmo núcleo: a assimetria comunicativa de um vínculo que, em tudo mais, foi profundamente recíproco.
O desejo de ouvir o pet falar é legítimo. Ele é a expressão de um amor que não dispôs da ferramenta de que precisava para se despedir de forma mais completa. Para entender por que esse desejo tem um peso tão específico no luto pet, é necessário compreender o que a neurociência nos diz sobre como o cérebro forma e processa vínculos profundos.
Quando nos vinculamos a alguém de forma intensa, o cérebro não apenas registra sentimentos: ele cria mapas. A pesquisadora Mary-Frances O’Connor, professora de psicologia clínica na Universidade do Arizona e autora de “O Cérebro em Luto”, descreve como o cérebro constrói representações virtuais de onde as pessoas que amamos estariam, funcionando de forma análoga a um sistema de navegação interno.
Pesquisas com ratos mostraram que neurônios individuais, chamados células de rastreamento de objeto, continuam disparando no local onde um objeto familiar costumava estar mesmo depois de ele ter sido removido, e que esse padrão persiste por dias até que o cérebro aprenda que o objeto não voltará. O’Connor explica que, após a morte de alguém, o cérebro ainda espera encontrá-lo devido ao padrão neural persistente, até aprender que essa pessoa não está mais presente.
Em “O Corpo de Luto”, O’Connor acrescenta uma dimensão que é especialmente relevante para compreender o luto pet: o vínculo não é apenas emocional ou cognitivo, ele é corporal e inconsciente. Quando formamos um laço profundo, constituímos um sistema dinâmico que opera abaixo do nível da consciência. O corpo responde à presença do outro por meio de mecanismos automáticos, e responde igualmente à sua ausência. É a ausência em si, e não apenas a consciência dela, que faz o corpo reagir. O cérebro utiliza dopamina, opioides, ocitocina e cortisol para motivar a busca pelo outro, e a teoria do apego prevê duas respostas previsíveis diante dessa ausência: protesto e desespero.
No contexto do luto pet, isso significa que a regulação corporal que o animal proporcionava, seu peso, seu calor, seus sons, sua respiração próxima, deixa de existir abruptamente, e o sistema que dependia desses estímulos continua buscando por eles. O desejo de ouvir o pet falar pode ser lido, nessa perspectiva, também como um protesto somático à separação, a busca por uma resposta que nunca existiu na forma esperada, mas que o vínculo tornava necessária.
A pesquisa na área de interação humano-animal tem avançado na compreensão da profundidade e da especificidade desses vínculos. McGlacken e colaboradores, em revisão publicada em 2025 no periódico “Human-Animal Interactions”, argumentam que a relação entre responsáveis e animais de companhia não pode ser adequadamente compreendida quando se trata responsável e pet como entidades separadas que se afetam mutuamente. O vínculo precisa ser analisado como um processo relacional dinâmico, e o bem-estar que emerge dessa relação não pertence a nenhum dos dois individualmente, mas se constitui entre eles.
Os autores também descrevem o conceito de família multiespécie, pelo qual o animal não se torna membro da família simplesmente ao ser adotado, mas por meio de um processo relacional contínuo que o integra à estrutura familiar de formas que vão além da afetividade.
Tudo isso amplia a visão a respeito do que acontece quando esse vínculo se rompe. A perda do pet não dissolve apenas um apego: ela desfaz uma configuração relacional inteira, uma forma de habitar o mundo que foi construída a dois.
Isso tem implicações clínicas importantes que a discussão sobre inteligência artificial torna ainda mais urgentes. Com um humano, mesmo que a despedida tenha sido difícil ou incompleta, havia a possibilidade da palavra. Com um pet, essa possibilidade nunca existiu, e o que fica depois da perda é a interpretação unilateral de uma relação que foi profundamente recíproca.
A culpa, que já é uma das marcas mais presentes no luto pet, se alimenta exatamente dessa ausência de resposta: a impossibilidade de ter ouvido que o esforço foi suficiente deixa um espaço que a mente preenche, com frequência, pelo caminho mais severo possível.
Se a tecnologia já é capaz de simular a voz de um humano falecido a partir de seus registros digitais, simular a “voz” de um pet, com palavras que ele nunca teve, é um passo que alguém vai dar, se é que já não está sendo dado. E aqui é necessário ser honesta sobre o que ainda não sabemos: não existe pesquisa que responda se uma ferramenta desse tipo ajuda na elaboração do luto ou se congela a pessoa exatamente no ponto de maior vulnerabilidade.
O que a neurociência do luto diz é que o cérebro precisa aprender a ausência, e que esse aprendizado depende, em algum momento, de que o estímulo de presença pare de chegar. Nikolaos Statharakos, psiquiatra e pesquisador do Hospital Geral de Tessalônica, publicou em 2025 uma revisão narrativa sobre a neurobiologia do luto na qual descreve como o transtorno de luto prolongado está associado a níveis persistentemente elevados de ocitocina, o que reforça o vínculo de apego e inibe o desengajamento emocional.
No transtorno de luto prolongado, o núcleo accumbens, região associada ao processamento de recompensa, mostra atividade aumentada, e lembretes da pessoa falecida ativam uma resposta semelhante ao “craving” observado em quadros de dependência. Esse mecanismo ajuda a compreender por que uma ferramenta que responde e interage no presente pode dificultar a reorganização que o luto exige: não porque o vínculo com quem amamos precise acabar, mas porque o cérebro precisa mover esse vínculo de um lugar para outro, da expectativa de encontro para a memória, da presença para a permanência.
A discussão levantada pela Newsweek sobre a monetização do acesso simulado a entes queridos falecidos tampouco é trivial. Mary-Frances O’Connor, entrevistada para a reportagem, aponta que empresas passam a ter acesso às perguntas mais íntimas e às preocupações mais profundas que as pessoas compartilham com seus mortos, criando um território de vulnerabilidade sem precedentes em termos de escala e de dados. Ferramentas que alimentam o anseio de forma contínua e comercialmente incentivada operam em direção oposta ao que a literatura clínica reconhece como necessário para a elaboração do luto.
O atendimento clínico em luto pet existe, entre outras razões, para oferecer um espaço acompanhado onde a conversa que não pôde acontecer em vida encontre outro caminho. Não para simular a voz que nunca existiu, mas para que o responsável possa, com suporte, dar forma às perguntas que ficaram sem resposta, sem se fixar no momento mais doloroso da perda.
A tecnologia vai avançar. As perguntas que ela levanta já chegaram.

