16/02/2026 - 14:56
O sistema de proteção animal do Reino Unido e de partes da Europa enfrenta um dilema ético sem precedentes. Abrigos de animais estão alertando para a possibilidade de eutanásia em massa de cães braquicefálicos — como Pugs e Buldogues Franceses — devido à impossibilidade de custear as cirurgias corretivas necessárias para que esses animais respirem sem dor. A crise é o resultado direto de décadas de seleção genética focada em características estéticas que, na prática, tornaram-se deformidades debilitantes.
Resumo:
Crise de superlotação: o abandono dessas raças disparou após tutores serem confrontados com custos médicos proibitivos.
Saúde comprometida: a Síndrome Obstrutiva das Vias Aéreas Braquicefálicas (BOAS) exige intervenções cirúrgicas complexas que a maioria dos abrigos não pode financiar.
Dilema ético: instituições argumentam que manter esses cães vivos sem cirurgia é prolongar o sofrimento, enquanto a eutanásia surge como a única alternativa “humanitária” diante da falta de recursos.
Pressão por leis: organizações de bem-estar animal cobram proibições mais rígidas para a reprodução de linhagens com focinhos excessivamente curtos.
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O fenômeno dos cães de “cara achatada” atingiu um ponto de ruptura. De acordo com relatos de gerentes de abrigos britânicos, o custo médio para corrigir as narinas estenóticas e o palato mole alongado de um único cão pode ultrapassar as £ 3.000 (aproximadamente R$ 20.000). Sem essas cirurgias, os animais vivem em um estado constante de asfixia parcial, exacerbada por altas temperaturas.
O custo do ‘fofo’ na genética canina
A popularização dessas raças, impulsionada por influenciadores e celebridades, criou um mercado de criadores clandestinos que priorizam o focinho cada vez mais curto. O resultado é uma geração de animais com crânios comprimidos que não oferecem espaço suficiente para os tecidos moles das vias respiratórias.
Especialistas ouvidos pela IstoÉ explicam que a estrutura braquicefálica interfere não apenas na respiração, mas na regulação térmica do animal. “Esses cães não conseguem ofegar de forma eficiente para resfriar o corpo. Em dias quentes, eles estão em risco constante de morte por hipertermia”, afirma um veterinário especializado em cirurgias reconstrutivas.
“Estamos sendo forçados a tomar decisões impossíveis. É justo gastar todo o orçamento de um abrigo em um único cão enquanto centenas de outros saudáveis ficam sem comida?”
Representante de abrigo de animais no Reino Unido
Impacto social e abandono
O cenário de abandono é agravado pela crise do custo de vida. Tutores que adquiriram esses cães durante a pandemia agora enfrentam dificuldades econômicas e não conseguem arcar com os planos de saúde especializados para raças de alto risco. O descompasso entre o desejo estético e a responsabilidade financeira gerou um fluxo constante de cães com problemas crônicos para abrigos que já operam acima da capacidade.
No Brasil, embora o cenário ainda não apresente o mesmo nível de saturação dos abrigos europeus, veterinários alertam para a tendência crescente de problemas respiratórios em Pugs e Buldogues. A discussão internacional serve como um alerta para que consumidores brasileiros busquem criadores responsáveis que priorizem a saúde e a funcionalidade física em detrimento de padrões de beleza extremos.
