16/01/2026 - 16:47
Uma pesquisa científica inovadora, publicada nesta quarta-feira, 14, no periódico PLOS ONE, confirmou uma suspeita milenar de cavaleiros e treinadores: os cavalos possuem a capacidade biológica de detectar o medo e o estresse em seres humanos por meio do olfato. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Tours, na França, e repercutido por instituições como o The Guardian e a CNN, revela que esses animais não dependem apenas de pistas visuais ou auditivas, mas interpretam sinais químicos complexos emitidos pelo corpo humano.
Cavalos diferenciam o odor do suor humano emitido sob estresse e em estado de relaxamento;
Animais demonstraram maior reatividade e vigilância ao serem expostos ao “cheiro de medo”;
A pesquisa utilizou amostras de suor coletadas de voluntários durante a exibição de filmes de terror e comédias;
A descoberta reforça a teoria da comunicação química interespécies, também observada em cães.
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A metodologia do suor e a resposta equina
O experimento foi desenhado para isolar o olfato de outros sentidos. Os pesquisadores coletaram amostras de suor de voluntários humanos em dois cenários distintos: enquanto assistiam a um filme de terror (para induzir medo) e a uma comédia (para capturar um estado neutro ou positivo). Posteriormente, as amostras foram apresentadas a um grupo de cavalos de diferentes raças e idades.
Os resultados foram estatisticamente significativos. Ao entrarem em contato com os cotonetes embebidos em “suor de medo”, os cavalos exibiram comportamentos de alerta imediato. Houve um aumento na frequência cardíaca, movimentos mais bruscos de cabeça e uma exploração nasal mais intensa. Em contraste, o suor “alegre” ou neutro gerou uma resposta de calma e desinteresse, sugerindo que o odor do estresse atua como um sinal biológico de perigo iminente para o animal.
Quimiosinalização: a linguagem invisível
A capacidade de detectar emoções alheias por meio de quimiosinais é uma vantagem evolutiva para animais de presa, como os cavalos. Na natureza, identificar o estresse em membros do bando ou em predadores próximos é vital para a sobrevivência. De acordo com a Dra. Léa Lansade, principal autora do estudo e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa para a Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente (INRAE), os cavalos são “esponjas emocionais”.
Essa sensibilidade química explica por que cavalos frequentemente reagem de forma ansiosa a cavaleiros inexperientes ou nervosos, mesmo quando estes tentam manter uma postura calma e voz firme. O corpo humano, sob estresse, libera compostos orgânicos voláteis (VOCs) que são imperceptíveis ao nariz humano, mas funcionam como um sistema de alto-falantes químico para o apurado sistema olfativo equino.
Equoterapia e treinamento
A descoberta tem ramificações diretas para práticas de manejo e terapias assistidas por animais. Na equoterapia, por exemplo, compreender que o paciente está enviando sinais químicos de ansiedade pode ajudar terapeutas a ajustar a abordagem antes mesmo que uma crise se manifeste visualmente. No esporte de alto rendimento, como o hipismo, o estudo reforça a necessidade de controle emocional do atleta, uma vez que o cavalo é capaz de “ler” o estado interno do cavaleiro de forma química e instantânea.
Além disso, o estudo faz uma ponte com pesquisas semelhantes realizadas com cães, publicadas recentemente pelo Daily Mail e Scientific American, indicando que a domesticação pode ter refinado essa capacidade de leitura química em espécies que convivem proximamente com o homem há milênios.
O futuro da pesquisa interespécies
Os cientistas agora pretendem investigar se os cavalos podem distinguir outras nuances emocionais, como a tristeza ou a raiva, e se essa capacidade varia de acordo com o nível de vínculo entre o humano e o animal. “Estamos apenas arranhando a superfície de como os animais percebem o nosso mundo interior”, destaca o relatório da Universidade de Tours.
Para a ISTOÉ, este avanço científico não apenas fascina os entusiastas do mundo equestre, mas serve como um lembrete assertivo de que a comunicação biológica é muito mais complexa e profunda do que as palavras ou gestos podem expressar. O respeito ao bem-estar animal passa, obrigatoriamente, pelo reconhecimento de sua sofisticada percepção sensorial.
