O caso do Orelha mexe porque ele não era “de alguém”. Ele era um cão comunitário. Desses que viram parte do bairro, do caminho, da rotina. Um animal que, sem perceber, vira um ponto de encontro emocional de um lugar.
Quando um animal assim morre de forma violenta, a comunidade não perde “um cachorro”. Perde um pedaço de segurança, de ternura e de confiança no humano. E isso tem impacto emocional real. A dor não fica privada. Ela circula.
Orelha vivia sob os cuidados da comunidade de Praia Brava, em Florianópolis (SC), havia cerca de uma década. No sábado, dia 24 de janeiro, foi encontrado em estado de agonia após ser brutalmente atingido por pauladas na cabeça. Resgatado por uma moradora e encaminhado a um hospital veterinário, o animal não resistiu à gravidade das lesões e precisou ser submetido à eutanásia devido ao quadro irreversível. O episódio de violência gerou uma onda de indignação.
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Mas existe um ponto que eu considero essencial para atravessar casos como esse sem se perder no excesso: a comoção pode mobilizar, mas ela não substitui o que sustenta responsabilização.
A Dra. Esther Espejo, médica-veterinária especialista em Medicina Veterinária Legal, chama atenção para algo simples e decisivo: em casos com vestígios, a perícia é indispensável. O que define um caso não é o volume de comentários, é a qualidade da prova. Isso inclui documentação adequada, preservação de vestígios e, quando indicado, necropsia.
O que me preocupa, especialmente quando um caso se torna público, é a pressa por resolver a dor com certeza. A mente quer uma resposta rápida, um culpado, um desfecho. Só que esse impulso tem um preço. Boatos, exposição, acusações feitas no grito e a circulação repetida de imagens violentas criam um ambiente que não favorece justiça nem saúde mental. Favorece tensão constante.
Nesse cenário, a técnica vira um cuidado. Não só jurídico, mas humano.
A Esther lembra que perícia envolvendo animais é atribuição do médico-veterinário e que a cadeia de custódia protege a integridade do processo. Na prática, isso significa que ações bem-intencionadas, mas desorganizadas, podem comprometer a preservação do que seria decisivo para o caso.
E existe outro aspecto que eu não acho que a gente deva ignorar: Orelha era comunitário. Isso muda tudo.
Um animal comunitário não tem um único responsável, mas tem vínculo e rotina reconhecíveis. Ele recebe cuidados distribuídos e, por isso, produz pertencimento. A Esther descreve que esses animais estabelecem laços de afeto e dependência com a comunidade em que vivem, e que podem ter papel socioeducativo. Para mim, isso explica a dimensão do impacto. A perda vira um luto coletivo. E luto coletivo, quando encontra violência, tende a gerar desorganização emocional.
Daí nasce aquela combinação que a gente vê com frequência: revolta, sensação de ameaça, insônia, irritabilidade, ruminação, necessidade de acompanhar tudo o tempo todo, como se isso evitasse que aconteça de novo.
Só que esse tipo de consumo constante não organiza a dor. Amplifica.
Se a intenção é honrar o vínculo com o Orelha e sustentar um caminho de justiça, eu deixaria alguns cuidados claros:
Não espalhar imagens e vídeos de violência. Isso não ajuda o caso e adoece quem vê.
Se você tem informação objetiva, encaminhe pelos canais corretos e de forma organizada.
Evitar transformar suspeita em sentença pública. Isso pode ferir pessoas, contaminar o ambiente e não necessariamente produz responsabilização.
E para quem fazia parte da rede que cuidava dele, permitir um gesto de despedida. Um rito simples, comunitário, que reconheça o vínculo sem transformar a dor em perseguição.
O Orelha mobiliza porque ele era vínculo. E vínculo, quando atravessado por crueldade, pede duas coisas ao mesmo tempo: método para que exista responsabilização e cuidado para que a comunidade não seja engolida pela própria indignação.

