29/08/2025 - 11:07
Silenciosa e potencialmente fatal, a leishmaniose é uma das doenças que mais preocupam tutores de pets no Brasil. Transmitida pela picada do mosquito-palha, ela pode se desenvolver por anos sem apresentar sintomas claros, o que torna a informação e a prevenção as principais armas para proteger os bichos de estimação. A importância do tema é tão grande que motiva campanhas anuais de conscientização, como o “Agosto Verde”, que buscam alertar a população sobre os riscos desse mal.
A enfermidade é causada pelo protozoário Leishmania infantum. “O mosquito pica um cão infectado e, ao se alimentar em outro cão ou ser humano, acontece a transmissão”, esclarece Kathia Almeida Soares, médica veterinária da MSD Saúde Animal. Os cães são considerados os principais reservatórios da doença em ambientes urbanos.
Uma das maiores dificuldades no combate à leishmaniose é o seu caráter muitas vezes assintomático. Segundo Carla Souza Rodrigues, médica-veterinária e consultora da Petz, “nem todo cão infectado apresenta sinais clínicos”. Isso significa que o bicho pode portar o parasita por meses, ou até anos, sem manifestar qualquer sintoma, dificultando o diagnóstico precoce.
Quando os sinais aparecem, podem ser variados e graves. “Os animais podem apresentar febre, emagrecimento, aumento dos linfonodos, alterações oculares, crescimento exagerado das unhas. Lesões cutâneas estão presentes em cerca de 90% dos casos”, esclarece Kathia.
Gatos também podem ser infectados?
Embora seja muito mais comum em cães, os gatos também podem contrair leishmaniose. A doença em felinos foi descrita pela primeira vez em 1912. Ela é considerada rara nos bichanos, que parecem ser mais resistentes ao protozoário. De acordo com Kathia, a função do gato como reservatório da Leishmania infantum ainda não está bem estabelecida. “É algo diferente do que vemos no cão”, ressalta.
Os sinais clínicos nos felinos, quando presentes, geralmente envolvem lesões na pele, especialmente na cabeça e nas patas, perda de peso e problemas oculares.
Prevenção é a melhor estratégia
As especialistas são unânimes em afirmar que a prevenção é o caminho mais eficaz e seguro para proteger os animais. “A prevenção da leishmaniose em pets deve ser feita com a combinação de medidas”, ensina Carla.
As principais recomendações incluem:
• Uso de repelentes: A utilização de produtos inseticidas tópicos com propriedade repelente, como coleiras e sprays à base de piretroides sintéticos, é essencial. Eles afastam e matam o mosquito-palha, impedindo a picada.
• Controle do ambiente: O mosquito se reproduz em locais com acúmulo de matéria orgânica, como folhas, frutos e fezes. Manter o quintal limpo e o lixo bem-acondicionado é fundamental.
• Telas de proteção: Instalar telas finas em janelas e portas, especialmente nos canis, ajuda a impedir a entrada do vetor em casa.
• Evitar passeios em horários de risco: O mosquito-palha tem maior atividade ao entardecer e à noite. Recolher os animais para dentro de casa nesses períodos reduz a exposição.
Sobre vacina, é importante esclarecer que atualmente não há nenhuma disponível no mercado brasileiro. Havia um produto, mas ele foi suspenso. No caso, a vacina era utilizada como método complementar ao inseticida tópico com propriedade repelente. Ela não impedia que a picada acontecesse; o objetivo estava em fazer com que o animal, caso infectado, tivesse manifestação clínica menor.
Tratamento: uma jornada para toda a vida
Caso um animal seja diagnosticado com leishmaniose, é importante que os tutores saibam que existe tratamento, mas não a cura parasitológica. “O que eu quero dizer com isso? Uma vez infectado, o animal estará para sempre infectado”, diz Kathia.
O tratamento visa controlar os sinais clínicos, reduzir a carga do parasita no organismo e proporcionar mais qualidade de vida ao pet. Carla aponta que, pelo fato de o parasita não ser eliminado, o cachorro está sujeito a recaídas. “A cura, que seria a erradicação completa da Leishmania, não ocorre”, explica.
Por isso, um animal diagnosticado precisará de cuidados contínuos pelo resto da vida, incluindo o uso ininterrupto de repelentes, medicamentos, exames de monitoramento e acompanhamento veterinário constante.
A doença é endêmica em todo o Brasil, com maior incidência nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, mas sua expansão para grandes centros urbanos do Sudeste é uma realidade preocupante. Campanhas de conscientização e o acesso à informação correta são, portanto, ferramentas cruciais para salvar vidas. “Quanto mais falarmos sobre o tema, mais vidas caninas e humanas serão salvas! Esse é o nosso papel, como médicos-veterinários e como seres humanos”, reforça Kathia.