Na minha atuação clínica e como psicóloga especializada em saúde mental no setor PetVet, tenho percebido como a instabilidade climática vem atravessando a rotina de tutores e profissionais. Muitas vezes são questões sutis, como dúvidas sobre o bem-estar do pet, sensação de sobrecarga, decisões difíceis no manejo, que somadas afetam a qualidade do cuidado e o próprio vínculo. Trazer consciência para esses movimentos pode aliviar a ansiedade e abrir espaço para escolhas mais equilibradas.

Tem dias em que seu pet parece mais cansado. Dorme demais, evita atividades, come menos. Em outros, respira mais rápido, procura novos cantos pela casa ou demonstra agitação sem motivo claro.

Pode ser só o calor. Ou pode ser um dos muitos reflexos da instabilidade que estamos vivendo. No clima, nos corpos e nos vínculos.

O médico veterinário Diego Mendes, especializado em oncologia e geriatria de cães e gatos e atual presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária, alerta que a maioria dos lares ainda não está preparada para esse novo cenário. Falta ventilação, sombra, atenção à hidratação. O ambiente impacta diretamente a evolução clínica desses pacientes. E o comportamento é um termômetro importante e faz diferença no diagnóstico. Um ajuste no ambiente proporciona bem-estar e evita complicações maiores.

Mas o impacto do clima não se restringe aos animais domésticos. O médico veterinário Raphael Vieira Ramos, paliativista de animais silvestres, observa mudanças significativas no comportamento e na saúde de animais em situação de vulnerabilidade ambiental. O aumento da temperatura e as alterações no regime de ventos e chuvas fazem com que filhotes caiam dos ninhos ou se separem das mães. Muitos chegam desidratados, parasitados e em estado crítico.

Raphael também chama atenção para o impacto emocional sobre os profissionais. Ainda existe muito tabu sobre expressar vulnerabilidade. Criar espaços de escuta nas equipes é essencial. Validar emoções é o que sustenta o cuidado a longo prazo.

Essa gentileza também vale para os tutores. Cuidar de um pet em tempos instáveis exige presença, mas também exige realismo. Nem tudo estará sob nosso controle. E isso não significa fracasso. Significa humanidade.

A ansiedade climática se manifesta como tensão contínua, alerta constante e medo do que ainda não aconteceu.

Nos lares multiespécies, ela atinge em cheio o vínculo. Mas ela também pode ser uma alavanca para a consciência e, quando canalizada com clareza e orientação, vira ação cuidadosa.

Com a COP30 se aproximando, o Brasil tem a chance de ampliar o debate climático com responsabilidade, inclusão e escuta. Os animais também vivem essa crise. E os tutores sentem seus efeitos, muitas vezes sem saber nomear.

Na saúde mental, nomear o desconforto é o primeiro passo para atravessá-lo. E no cuidado com os animais, transformar o vínculo em refúgio pode ser uma resposta potente ao medo. É preciso aquecer, assim, o vínculo entre as espécies. Mesmo em tempos desafiadores, o cuidado começa na presença. E os vínculos seguem sendo abrigo, impulso e sentido.